quinta-feira, 28 de junho de 2018

A etimologia em Dom Casmurro


Conquanto o estudo seja Brasil afora uma espécie de impropério, de modo que o culto à ignorância mais é atopetado, este escrito visa a ligar termos pouco comuns no dia a dia, por sua vez presentes em Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, a fim de desvendar alguns étimos nunca interrogados, pelo menos não à moda que incute Antenor Nascentes e Machado de Assis; figuras, portanto, dignas de registro.

Sem mais delongas, Machado faz menção à palavra sestércio, a saber, antiga moeda romana. A bem da verdade, o vocábulo é oriundo do latim sestertiu, isto é, adjeção de se (redução de semi-) com terço/terceiro (tertius). Em síntese, meio terceiro configuraria dois asses e meio; valor, logo, correspondente à época. Demais disso, o Bruxo do Cosme Velho cita também a expressão predito, por seu turno emanada do latim praedictus, ou seja, dito (dictus) antes (prae). Observações à parte, promulgo que sou contrário àquele absurdo de modificar a obra machadiana, com o intuito de ela ser mais bem acessível aos jovens pútridos e incapazes de uma locupletação vocabular.

Destarte, tísico é outro ponto que aparece vez ou outra no autor, diga-se, cuidadoso e rico em cada pausa. Acerca do termo, trata-se de um indivíduo muito magro, que sofre de tuberculose pulmonar, ao passo que advém do grego phthisiké, qual seja, que causa consunção; palavra, essa, aludida por Antenor. Como próximo, encarquilhar seria tão-somente um verbo designando ficar com carquilha, logo, cheio de rugas. Resumo da ópera, coadunação de en- (movimento para dentro) com carquilha, que provém de karko, torcido; adjetivo, então, direcionado evidentemente à pele.

Seguindo o texto, lépido decorre do latim lepidu, por sua vez englobando a noção de gracioso, embora haja por hoje a ideia de rápido e de adjetivos afins. Por fim, o que o jovem precisa é correr atrás, afinal, não existe ensino, e sim aprendizado. Que aprendam não mais a fazer as vezes de fantoche de professor que acha bacana a banalização da estupidez, a formação de macunaímas, e, não menos grave, a criminosa ordem dos valores intelectuais. Machado é eterno. É isso.

Daniel Muzitano

quinta-feira, 14 de junho de 2018

As peripécias da peripécia


Conquanto não seja tão-somente uma melódia, que, a seu bel-prazer, está atrelada à faculdade de uma espécie de surpresa, a peripécia talvez sê, sobretudo ao olhar de Aristóteles, um elemento difuso e pautado numa reviravolta de fatos; comportamento, esse, crível e presente na poética do filósofo, resultando num rumo contrário àquele dantes imaginado. 

Demais disso, e menoscabando dicionários esquálidos, Antenor Nascentes, mestre dos mestres, sublinhou em sua obra-prima não apenas o pormenor aristotélico, tal como promulgou que houve uma clara extensão de sentido. Desta feita, a palavra faz as vezes outrossim de aventura e de incidente, diga-se, em seus mais diversos sentidos. 

Por fim, a circunspecção do fato tem por nascimento o grego peripéteia, por seu turno significando acidente. Em suma, o sentido original do termo está coadunado para com a ideia do autor. Como só Aristóteles explica Aristóteles, dadas duas proposições, a saber, uma é verdadeira. Outra, falsa. E assim deu-se o terceiro excluído.

Daniel Muzitano

terça-feira, 29 de maio de 2018

Não seria mais fácil?


Conquanto a etimologia não seja o ai-jesus enquanto aprendizado, sobretudo no que diz respeito à classe docente, porfio com a questão, de modo que noutro dia rememorei que em minha puberdade, a bem dos fatos, tivera eu um exacerbado contratempo para gravar e para assimilar, por algum porquê, o conceito da palavra oligopólio.

Demais disso, mais das vezes o vocábulo para comigo era um ponto de dúvida e de confusão, pois nele havia um estorvo maior do que o Maracanã. Nimiedades à parte, presumo que não é lá muito profícuo dizer tão-somente que o oligopólio é a situação econômica cujo pequeno número de empresas controla a oferta de produtos para ter domínio sobre o mercado.

Em síntese, estar mais bem a par é ir ao encontro da origem, porquanto oligo- é prefixo emanado do grego olígos; designando, portanto, pequeno. Já o sufixo -pólio, sabê-lo-íamos que engloba a lógica de venda. Com isso, precisamos de uma vez por todas fazer da etimologia uma obrigatoriedade em nossas vidas, afinal, como dizia Tito Lívio, quanto menor o medo, menor o perigo. Que raciocinemos: não seria mais fácil? Vamos à luta.

Daniel Muzitano

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O desânimo de morar no Rio


À diferença doutros tempos, épocas em que um Macunaíma não era exaltado, a dedicação aos estudos, à espreita da lei, resultava em méritos exorbitantes, ao passo que o malandro, seja na figura de um Lula ou de um bandido qualquer, não possuía vez, conquanto desde o romantismo o Brasil dê sinais de sua imensa inocuidade cultural.
Pari passu, a família, o trabalho, o estudo e os bons valores no panorama brasileiro mais parecem utopias, quando muito um lugar-comum. Desta feita, o não estudo, por exemplo, serve de abre-alas para uma desculpa, acarretando vez ou outra num degrau a mais. A nítida inversão de valores, dantes taciturna, vem à tona em seu rosto mais abjeto, chegando ao ponto de a explicação do óbvio ser de difícil compreensão.
Por fim, é desanimador estudar no Brasil, enquanto que um sindicalista que mal sabe ler, a saber, às vezes consegue três vezes o que você ganha, tal como é nojento o descaso com a polícia em prol do bandido, com o trabalho em favor de uma ideologia, e, principalmente, é ominoso e desanimador viver aqui, afinal, poucos são os olhos que enxergam tal raciocínio. Dado o exposto, retorno à Maria Callas. Quem? - perguntarão tantos. Que um raio aparte.

Daniel Muzitano

terça-feira, 8 de maio de 2018

Mais uma necedade


Para com o uso de estrangeirismos palúrdios, diga-se, ao par desnecessários, conversei outro dia acerca de como estamos à míngua enquanto enriquecimento vocabular, ao passo que há demasiado afinco quanto ao uso de expressões estrangeiras, que, a saber, por cá há palavras à altura perfeitamente capazes de substituí-las. Sem embargo, vejo muitos utilizarem timing, budget, friend e market share, por exemplo, em vez de cronometragem, despesa, amigo e fatia do mercado. 

Ademais, sou caudatário de estrangeirismos, desde que não haja um termo consentâneo e compatível em nossa língua; caso, logo, de shopping, de marketing e de pizza. Todavia, a opção do público demonstra que o brasileiro menoscaba a sua própria literatura, e, pelo o que leio, os livros de um modo geral. Por conseguinte, emana aí o repertório raso e ignaro. Para tanto, a opção por outros idiomas, sobretudo pelo inglês, revela outrossim não um interesse por um segundo idioma, mas sim que estamos consumindo o que há de mais estúpido nele, haja vista o nível simples de vocábulos propriamente substituídos.

Destarte, faço alusão ao que há de mais ignóbil na cultura inglesa, a ver, música pop, hip-hop, livros do nível de um "A culpa é das estrelas" ou esses de autoajuda, séries não muito profícuas e outras estultices. Demais disso, sei que sairei como preconceituoso, arrogante etc. Contudo, e no livro de Nietzsche, li que o poder de atração do conhecimento seria muito fraco, se no caminho que a ele conduz não tivéssemos de vencer tantos pudores. Vou voltar a ouvir Chet Baker, pois fica a dica àqueles que falam friend em vez de amigo. É isso.

Daniel Muzitano

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Os pontos de interrogação sobre a Bruxa

Malgrado o fato de haver um meandro para com a questão, sãmente outorgo os pontos relevantes acerca do étimo da palavra bruxa, que, a bem da verdade, é deveras pouco detalhado e muito menoscabado, ao passo que dicionários e etimólogos estão restritos à explicação pobre, a saber, de conferir ao termo que se trata de uma origem controvérsia. Embora haja mais de uma teoria, pari passu presumo ser dever de profissionais da área mostrar todas as possibilidades presentes no fato em questão, diga-se, sem cometer quiproquó algum, isto é, tomar uma coisa por outra.

A seu turno, o estimado Deonísio da Silva, em sua coluna dedicada à etimologia, pouco agregou neste particular; fato, esse, que auspiciou neste que vos fala uma curiosidade irrefragável na busca incessante por tais porquês. Consoante alguns etimólogos brasileiros, bruxa seria resultado do latim bruchu, ou seja, gafanhoto sem asas. Desta feita, talvez a vassoura para voar e a associação com o sentido de feiura, notem, tenham surgido daí. Sem mais delongas, a Academia Espanhola promulga que o vocábulo espanhol brujo, decorrente do latim bruscus, seria decerto a origem. A título de explicação, bruscus seria perereca, qual seja, mais um concorrente latino quanto ao fato de ter vindo à tona o significado de feia para a palavra, uma vez que o bicho é reconhecido por sua falta de venustidade.

Demais disso e por fim, João Ribeiro, sobretudo em sua obra-prima Frases Feitas, revela que a bruxa é oriunda do vasconço buruz, portanto, de cabeça baixa. Na verdade, a cabeça estaria escondida ou parcialmente escondida, a somar, pela minúcia do uso da capa. Dentre as alternativas, o escorreito João Ribeiro merece uma credencial no tema, pois muito fez pela etimologia, pela Língua Portuguesa, e, de certo modo, por todos nós. O aspecto triste é que ninguém Brasil afora, seja professor ou aluno, tem ciência da quase que incomparável importância do ilustre aludido, mas todos conhecem as necedades musicais cá em vigor, por exemplo, o funk. Isso é o Brasil. Triste.

Daniel Muzitano

terça-feira, 13 de março de 2018

Sob a tutela etimológica

Pari passu em que sou caudatário convicto de a etimologia ser a essência da existência enquanto método de ensino, sou outrossim escorreito quanto ao fato de pôr e de vir à tona a comprovação daquilo que acredito. Desta feita, e por meio desse artigo, elucidá-lo-ei o quão mais simples seria não tão-somente para o professor, tal como para o aluno, a ver, caso a etimologia fosse o elemento de explicação nas salas de aula Brasil afora.

Sem mais preâmbulos, peguemos uma aula de figura de linguagem como teste. Grosso modo, a palavra prosopopeia - sem acento - decorre do grego prósopon, isto é, rosto. Para com o sufixo -peia, resulta da ideia de criar ou de fazer. Por conseguinte, trata-se da figura que consiste na atribuição de sentimentos, de psicologia e de comportamento humanos a seres inanimados. Em síntese, criar um rosto para algo sem vida.

Dado o exposto e para tanto, a música de Cartola seria um suntuoso exemplo, sendo mais bem específico, faço alusão à obra-prima "As rosas não falam". Vamos ao trecho: "Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti". O que o melhor sambista de todos os tempos fez? Criou um rosto para algo inanimado, isto é, as rosas.

Houvesse a criança aprendido nesse formato, teria vida a ignóbil e tola decoreba? Em vez de o professor mandar o jovem gravar o que é metonímia, mais plausível seria dizer que o vocábulo é uma adjeção de met(a)- , prefixo que designa mudança. E -ônimo ou -onímia, sufixo que por sua vez engloba como significado nada mais do que nome. Em resumo, mudança de nome. No momento em que digo que li Nelson Rodrigues, quero dizer na verdade que fiz a leitura de seu livro ou de sua crônica. Ou seja, usei o nome Nelson no lugar de um título de um livro ou de uma crônica.

Por fim, onomatopeia é a junção de onoma-, qual seja, nome. E -peia, fazer. Em suma, fazer um nome, a completar, por meio de um som. Reco-reco, tique-taque e pingue-pongue justificam a ideia supracitada. Estamos muito atrasados e é triste o lugar cujo brasileiro ocupa culturalmente falando, a entender, pelo fato de a "intelectualidade" brasileira discutir estultices, menoscabando o que de fato deveria estar à frente na esfera celestial da discussão, portanto, a irreprochável etimologia. É isso.

Daniel Muzitano