quarta-feira, 18 de março de 2020

Vamos propalar cultura?

Exaurido das palurdices atinentes ao coronavírus e propagadas pelos pseudointelectuais redes sociais afora, resolvi não mais discutir solecismos acerca do tema, bem como qualquer argumento non sequitur, de maneira que a etimologia, pelo menos a meu ver, é um assunto mais importante e mais interessante.
Nesse sentido, estive a rememorar o étimo do verbo pagar. Assim, pelo consenso de todos, ou omnium consensu, pagar nasce da palavra latina pacare, ou seja, apaziguar. Com isso, inicialmente, no momento em que o sujeito pagava, abrandava por sua vez a fúria do credor.
Demais disso, um termo outro que adquiriu uma evolução pouco trivial foi o substantivo palestra, do grego palaístra, qual seja, lugar onde eram realizados exercícios físicos, lutas, instruções verbais e embate de ideias; daí, logo, a acepção de conferência sobre determinado assunto. Em vez de dramas infantis, vamos propalar cultura.
Daniel Muzitano

sexta-feira, 13 de março de 2020

Acordo de somenos


Ainda que eu já tenha enfatizado o meu amplo contempto pelo Novo Acordo, sempre que ouço ou leio a expressão pai dos burros, estua em mim uma espécie de crítica interna, de maneira que me sinto no dever de proliferar meu extremo descontentamento. Antes de vir à tona o abjeto Acordo e de ele estiolar a nossa alma, havia uma distinção entre pai dos burros, literalmente pai dos burros, e o pai-dos-burros devidamente hifenizado, fazendo as vezes de dicionário. Conseguintemente, não havia qualquer possibilidade de ambiguidade em construções quaisquer.

De mais a mais, nota-se que os "sábios" da nova regra rejeitaram, impreterivelmente, as funções primordiais do hífen, isto é, extirpar ambiguidades e/ou produzir um novo sentido, um novo corpo, mediante dois ou mais termos. Para tanto, vale lembrar de que hífen deriva do grego hýphen, logo, um só corpo. Com isso, a fim de esmiuçarmos a necedade do novo texto, cujo pai é o falecido Antônio Houaiss, vamos a um exemplo: "o pai dos burros faleceu".  

Refiro-me ipsis litteris (literalmente) ao pai dos burros ou ao dicionário? Graças ao Novo Acordo, pois bem, não conseguimos ter essa ciência. Em síntese, batizo o Novo Acordo, sem ter o intento da crítica gratuita, de delirium tremens, expressão de origem latina e que é compreendida como delírio de um alcoólatra. Delírio de um alcoólatra é uma belíssima anadiplose para findarmos esse texto heroico; palavra, logo, que deixou de ter importância, afinal, também graças ao Novo Acordo, perdeu sua vida, seu respectivo acento. Hasta pronto

Daniel Muzitano  

quarta-feira, 4 de março de 2020

Por que ninguém comenta sobre Queísmo e Dequeísmo?

Conquanto se façam presentes cotidianamente na linguagem popular, há um lapso iniludível dos vocábulos citados nesse título, sobretudo em conjunturas acadêmicas, de modo que estudiosos da área de Letras não exortam a investigação das práticas de queísmo e de dequeísmo. Nesse comenos, vale propalar que tão-somente o Michaelis e o Volp, em relação aos dicionários on-line, promulgam os respectivos substantivos cá aludidos.
Dessa forma, consoante o Michaelis, queísmo seria a "omissão da preposição "de" antes da conjunção subordinativa integrante "que", quando, pela regência do verbo, na linguagem padrão, ela é exigida". Assim, não é incomum ouvirmos na rua, por exemplo, que "fulana gosta que fale dele". Grosso modo, quem gosta, gosta de, isto é, o apropriado seria dizer "fulana gosta de que fale dele".
A bem da lógica, o queísmo é o equívoco regencial que enfatiza o "que" e rejeita o "de", embora a preposição seja solicitada pelo verbo. Quanto ao dequeísmo, também de acordo com o Michaelis, é classificado como "emprego da preposição "de", sem função sintática e dispensável, antes da conjunção "que", em determinadas orações.
Pari passu, seria como dizer algo do tipo "percebo de que fiz isso". Em suma, eu não percebo de algo, e sim algo. Em outras palavras, o dequeísmo é um solecismo regencial que dá ênfase ao "de", ainda que o verbo não o peça. Fôssemos um país decente, queísmo e dequeísmo estariam em nossa base curricular. Porém, na cabeça de alguns, o barato é o culto às necedades do Novo Acordo. Eu faço a minha parte. Uma boa-noite a todos.
Daniel Muzitano