quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O aniversário de Nelson Rodrigues


Por conseguinte de um continuum, quisera o tempo que eu findasse a leitura de um livro de Nelson, a saber, no dia em que o dito-cujo completaria mais um inverno. A pátria em chuteiras, obra-prima para os que enaltecem um texto sem igual, faz de todos os leitores meros vassalos de cada vírgula, de cada análise, de cada exasperação do autor.
Nelson foi capaz de ressaltar, por exemplo, que a Inglaterra, depois da copa de 66, nunca mais venceria nada. De modo a não cometer nenhuma sem-razão, o escritor foi o único capaz de trazer elementos do dia a dia, nunca promulgados por qualquer alma, ao futebol, haja vista que tais explicitam a arte, diga-se, em sua melhor perspectiva.
Em síntese, ler Nelson Rodrigues é como possibilitar a ressurreição de Cristo. Nem o piano de Claude Debussy, por assim dizer, consegue formular tanto ato homérico, a fim de ressaltar a expressão latina de um dicant paduani. Por fim, Nelson, penso agora, deve ser uma bíblia àqueles que se propõem a locupletar com a solitária solidão.
De mais a mais, o ponto-chave é que Nelson faz de nossas hodiernas mesas-redondas uma espécie de encontro de simplórios. Envelheci 40 anos em 15 dias e fui capaz, ainda que sem conhecê-lo, de sentir saudade de um tempo que não vivi. Parabéns, Nelson. Uma pena que para cada gênio nasçam 60 mil imbecis. Você é eterno.

Daniel Muzitano

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um tácito de rapsódia


Saber povoar a solidão dignifica o homem em suas mais triviais paixões. Parecia haver um elã infindável e, mesmo, estimulado. Enfim um sábado tenho para a tessitura à deriva, a fim de compor meu tempo com mais liberdade.
Meu gosto cultural possui predicados de séculos atrás, porquanto há a necessidade em pessoas inteligentes pela opção de cérebros antigos. Assim faço, pois difícil parece a convivência com uma mulher que tenha menos de 33 invernos.
Às vezes, parece não haver outro jeito, senão procurar em outro estado a opulência que falta nesse. A pátria em chuteiras de Nelson Rodrigues e um bate-papo com a Regina foram minhas respirações diante deste frio esboçado por um legítimo verão. Conversas e conversas são inimagináveis, mas Regina fala de livros, tece críticas culturais e possui um nível similar ao meu, sem qualquer objeção.
A ausência de um colóquio no Rio tornou-se o bar não uma opção, mas uma obrigação para reinar o colosso de uma praia. Chegamos a um ponto de ver mais fulgor à distância de 500 mil metros a ficar submetido a uma saia sem qualquer obra. E o pecado parece irremediável.

Daniel Muzitano