segunda-feira, 3 de agosto de 2020

No faz-de-conta do Novo Acordo

Malgrado eu vitupere praticamente sozinho as necedades afora do Novo Acordo, meu intento outro é sempre o da opulência vocabular. Percebida por mim neste hoje, a ação mentecapta produzida pelos adeptos da Nova Reforma, adjetivada por qualquer alma lógica como um tremendo quiproquó, está na falta de hífen quanto à expressão faz-de-conta, pelo menos quando a dita-cuja faz as vezes de fantasia, imaginação, fingimento e similitudes afins.

No faz-de-conta do Novo Acordo, entendam como fingimento ou mesmo como fantasia, não há o sinal gráfico. O hífen, embora os "doutos" não saibam, pretende extirpar ambiguidades e/ou formar um novo corpo, um novo sentido, por meio de dois ou de mais vocábulos. Não à toa, na construção "faz de conta que isso existe", a saber, é insofismável a sua noção literal, ou seja, o hífen é dispensável. Porém, no preâmbulo desse parágrafo, a situação é outra, pois, como asseverei, existe um novo sentido presente. Em suma, houve a eliminação de ambiguidade, e, incorporada a roupagem de fingimento, por exemplo, há outrossim a criação de um corpo no chamado faz-de-conta.

Por fim, será que é tão difícil para a Academia enxergar isso? Chega a ser um desdouro intelectual essa cegueira abrupta, isso para ser muito respeitoso, posto que hoje acordei com certa alacridade. Esse Acordo, é preciso que alguém diga, foi feito para fins políticos, caracterizado por seu turno como uma norma absolutamente analfabeta, execrável, digna de lamúria e de reproche por assim dizer.

Daniel Muzitano

domingo, 19 de julho de 2020

O pascácio conceito de cultura

Malgrado o fato de eu compreender a cultura como um processo quase que onímodo, preservando evidentemente a moral e o bom vezo, nossa Constituição não a vê nesse viés, haja vista que determina como cultura qualquer expressão do modo de vida do brasileiro. Assim, ante esse nacionalismo néscio, tem-se o funk como uma expressão do modo de vida do povo brasileiro, isto é, como cultura, ao passo que um Chopin, não enquadrado nesse título, passou a ser ignorado e tratado como algo de somenos, irrelevante por assim dizer.
Exposto o cenário, Ernesto Nazareth e João Pernambuco, dois gênios de classe sem igual, apesar de brasileiros, não constituem em sua obra um modo de expressão nacional, e, portanto, são igualmente apagados enquanto referência. Por outro lado, o Rappa e o Marcelo D2, por pior que ela seja, configuram uma expressão do povo brasileiro; estando à frente, em nossa Constituição, por exemplo, do Raphael Rabello.
In terminis, nossa lastimável Constituição legifera, mais das vezes, a favor da banalidade artística nacional, em prol de qualquer alma que revele qualquer ponto do Brasil. Eis aí um dos muitos porquês de estarmos imersos na podridão hodierna. É claro que o Noel Rosa e o Cartola, e muitos outros nomes relevantes, estão dentro de nossa lei cultural, porém é igualmente notório que o conceito é pascácio, pois tanto um quanto o outro são muito maiores do que "uma manifestação da expressão nacional". Em suma, até o que é muito bom e preservado nos anais da história, a saber, fica diminuído e ridicularizado. O conceito é torpe. Precisamos da alta cultura.
Daniel Muzitano

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O crime impretérito

Empós de respostas não tão alongadas, e não haverá evidentemente consensus omnium em tal questão, ousá-lo-ei questionar se estamos por vivenciar a era do crime de pensamento, citado de modo iniludível e erudito por George Orwell, respectivamente na obra de 1984. Caros, amiúde tenho que pensar se posto ou não um conteúdo, se falo um não de certo tema, o que posso perder ou não com uma simples postagem: tudo hoje é vigiado, passível de insultos e de perdas.
Desse modo, pensar é crime imperioso, provavelmente com punição imprescritível e inafiançável. Ontem, paulatinamente, ao longo do dia, estava decidido: farei um post sobre os personagens de Bolaños. Hoje, imaginando as críticas, provavelmente vão politizar o vídeo, tecer insultos, e, o que é mais lamentável, vão indubitavelmente rejeitar as referências filosóficas aludidas e o que o Bolaños tinha a nos oferecer. Em nome da promoção vitimista, deu-se no país uma ignorância, a fabricação de pessoas politicamente taradas; enxergando, com total esforço, política ou ato racista até em rótulos de shampoo.
Dado o exposto, como posso arriscar uma pauta? Que segurança tenho de que não perderei profissionalmente? Dependendo de suas orientações e valores, que conclusão outra posso chegar, senão a de que pensar é crime impretérito...? E paremos por aí, pois os mais revoltados já estão por reclamar.
Daniel Muzitano

Nota e esclarecimento sobre o vídeo que fiz envolvendo o "combate" ao racismo

Publiquei um vídeo esta semana sobre o que, a pretexto de um suposto combate ao racismo, estão fazendo com a arte e com certos estudos. Dessa forma, procurei ser respeitoso, civilizado, porém, ainda sim, poucos foram os que entenderam, de maneira que a consequência foi o recebimento de uma produção de insultos; todos devidamente deletados.
Embora eu tenha recebido alguns elogios e algumas críticas legais, é de lamentar o nível civilizatório e intelectual da maioria, aquela que precisamente me vituperou como bem é sabido. Tenho consciência de que o tema é delicado, tentei ser circunspecto ao máximo, porém infelizmente a grande maioria não possui o mínimo dos pré-requisitos para um debate sadio. Dentre os erros, vi gente confundindo etimologia com significado, escrevendo etimologia com "t" mudo, talvez, se me permitem a piada, por influência da palavra etnocentrismo, e outros detalhes mais.
Em suma, devido ao analfabetismo funcional de diversos professores e à incapacidade de muitos na averiguação diacrônica da língua, faz-se impossível a abordagem de um tema mais complexo, cuja presença de holofotes é gritante. Dito isso, evitarei perambular por pautas mais amplas, haja vista que voltarei a me limitar à divulgação dos étimos dos vocábulos. Às vezes, por pura bondade e ingenuidade, tenho a esperança de que serei compreendido. Que erro!
Daniel Muzitano

terça-feira, 26 de maio de 2020

A culpa é do café vespertino

O latim mutatis mutandis, que pode pormenorizar o que ocorre com o vocábulo sucesso no espanhol e no português, diz-se de dois fatos que, com pequena alteração das circunstâncias, são notoriamente iguais. De antemão, a explicação será transitória, todavia com demasiado fulgor.
Visto no português como um "resultado positivo" por boa parte dos brasileiros, o sucesso, grafado na Espanha com um "s", designa tão-somente um acontecimento, mais das vezes de cunho ruim. Entrementes, levando em conta seus direcionamentos divergentes, ambos partiram da mesma lógica, a de algo que se sucedeu, que aconteceu.
Assim, promulga a Real Academia Espanhola: "Cosa que sucede, especialmente cuando es de alguna importancia". Ao mesmo encontro, ressalta o Priberam: "Aquilo que sucede, que acontece". Resumindo, deparei-me com o sucesso na aula de espanhol, comparei as evoluções e, por fim, usei a expressão mutatis mutandis para apontar a relação. Definitivamente, aos olhos do mundo, não sou um homem normal. Porém, a culpa é do café vespertino.
Daniel Muzitano



segunda-feira, 20 de abril de 2020

O farisaísmo dos sócios da quarentena

Pretexto por agora de ociosos tantos, a quarentena, em seu propósito inicial, bem continha o discurso piegas de que preservava a vida e o bem-estar da população. Eis senão quando, hoje bem a vejo que muitos a tratam como um sinônimo parvo de férias, uma espécie de seguro-desemprego absolutamente descabido, e que muito me deixa espaventado e exasperado.
De mais a mais, o suposto bem-estar e a suposta preservação da saúde, considerando notícias de bancarrota de grandes empresas, demissões em massa, desculpa para soltar bandidos etc, não mais são lógicos. Não por acaso, o latim tem a expressão lata culpa, que remonta à acepção de negligência excessiva, por sua vez solevantando que a irresponsabilidade dos sócios da quarentena será nitidamente cara.
Por fim, no transitar dos tempos, di-lo-ei que achei meu propósito de vida, portanto, as correções, as transcrições, as aulas: quefazeres que hoje, devido à realidade produzida pelos sócios do terror, não mais fazem parte do meu vezo. Em suma, antes alguns mortos de corona a todos de fome. Com isso, precisamos trabalhar e enfim mostrar a indignação aos falsários de plantão.
Daniel Muzitano

quarta-feira, 18 de março de 2020

Vamos propalar cultura?

Exaurido das palurdices atinentes ao coronavírus e propagadas pelos pseudointelectuais redes sociais afora, resolvi não mais discutir solecismos acerca do tema, bem como qualquer argumento non sequitur, de maneira que a etimologia, pelo menos a meu ver, é um assunto mais importante e mais interessante.
Nesse sentido, estive a rememorar o étimo do verbo pagar. Assim, pelo consenso de todos, ou omnium consensu, pagar nasce da palavra latina pacare, ou seja, apaziguar. Com isso, inicialmente, no momento em que o sujeito pagava, abrandava por sua vez a fúria do credor.
Demais disso, um termo outro que adquiriu uma evolução pouco trivial foi o substantivo palestra, do grego palaístra, qual seja, lugar onde eram realizados exercícios físicos, lutas, instruções verbais e embate de ideias; daí, logo, a acepção de conferência sobre determinado assunto. Em vez de dramas infantis, vamos propalar cultura.
Daniel Muzitano