terça-feira, 26 de maio de 2020

A culpa é do café vespertino

O latim mutatis mutandis, que pode pormenorizar o que ocorre com o vocábulo sucesso no espanhol e no português, diz-se de dois fatos que, com pequena alteração das circunstâncias, são notoriamente iguais. De antemão, a explicação será transitória, todavia com demasiado fulgor.
Visto no português como um "resultado positivo" por boa parte dos brasileiros, o sucesso, grafado na Espanha com um "s", designa tão-somente um acontecimento, mais das vezes de cunho ruim. Entrementes, levando em conta seus direcionamentos divergentes, ambos partiram da mesma lógica, a de algo que se sucedeu, que aconteceu.
Assim, promulga a Real Academia Espanhola: "Cosa que sucede, especialmente cuando es de alguna importancia". Ao mesmo encontro, ressalta o Priberam: "Aquilo que sucede, que acontece". Resumindo, deparei-me com o sucesso na aula de espanhol, comparei as evoluções e, por fim, usei a expressão mutatis mutandis para apontar a relação. Definitivamente, aos olhos do mundo, não sou um homem normal. Porém, a culpa é do café vespertino.
Daniel Muzitano



segunda-feira, 20 de abril de 2020

O farisaísmo dos sócios da quarentena

Pretexto por agora de ociosos tantos, a quarentena, em seu propósito inicial, bem continha o discurso piegas de que preservava a vida e o bem-estar da população. Eis senão quando, hoje bem a vejo que muitos a tratam como um sinônimo parvo de férias, uma espécie de seguro-desemprego absolutamente descabido, e que muito me deixa espaventado e exasperado.
De mais a mais, o suposto bem-estar e a suposta preservação da saúde, considerando notícias de bancarrota de grandes empresas, demissões em massa, desculpa para soltar bandidos etc, não mais são lógicos. Não por acaso, o latim tem a expressão lata culpa, que remonta à acepção de negligência excessiva, por sua vez solevantando que a irresponsabilidade dos sócios da quarentena será nitidamente cara.
Por fim, no transitar dos tempos, di-lo-ei que achei meu propósito de vida, portanto, as correções, as transcrições, as aulas: quefazeres que hoje, devido à realidade produzida pelos sócios do terror, não mais fazem parte do meu vezo. Em suma, antes alguns mortos de corona a todos de fome. Com isso, precisamos trabalhar e enfim mostrar a indignação aos falsários de plantão.
Daniel Muzitano

quarta-feira, 18 de março de 2020

Vamos propalar cultura?

Exaurido das palurdices atinentes ao coronavírus e propagadas pelos pseudointelectuais redes sociais afora, resolvi não mais discutir solecismos acerca do tema, bem como qualquer argumento non sequitur, de maneira que a etimologia, pelo menos a meu ver, é um assunto mais importante e mais interessante.
Nesse sentido, estive a rememorar o étimo do verbo pagar. Assim, pelo consenso de todos, ou omnium consensu, pagar nasce da palavra latina pacare, ou seja, apaziguar. Com isso, inicialmente, no momento em que o sujeito pagava, abrandava por sua vez a fúria do credor.
Demais disso, um termo outro que adquiriu uma evolução pouco trivial foi o substantivo palestra, do grego palaístra, qual seja, lugar onde eram realizados exercícios físicos, lutas, instruções verbais e embate de ideias; daí, logo, a acepção de conferência sobre determinado assunto. Em vez de dramas infantis, vamos propalar cultura.
Daniel Muzitano

sexta-feira, 13 de março de 2020

Acordo de somenos


Ainda que eu já tenha enfatizado o meu amplo contempto pelo Novo Acordo, sempre que ouço ou leio a expressão pai dos burros, estua em mim uma espécie de crítica interna, de maneira que me sinto no dever de proliferar meu extremo descontentamento. Antes de vir à tona o abjeto Acordo e de ele estiolar a nossa alma, havia uma distinção entre pai dos burros, literalmente pai dos burros, e o pai-dos-burros devidamente hifenizado, fazendo as vezes de dicionário. Conseguintemente, não havia qualquer possibilidade de ambiguidade em construções quaisquer.

De mais a mais, nota-se que os "sábios" da nova regra rejeitaram, impreterivelmente, as funções primordiais do hífen, isto é, extirpar ambiguidades e/ou produzir um novo sentido, um novo corpo, mediante dois ou mais termos. Para tanto, vale lembrar de que hífen deriva do grego hýphen, logo, um só corpo. Com isso, a fim de esmiuçarmos a necedade do novo texto, cujo pai é o falecido Antônio Houaiss, vamos a um exemplo: "o pai dos burros faleceu".  

Refiro-me ipsis litteris (literalmente) ao pai dos burros ou ao dicionário? Graças ao Novo Acordo, pois bem, não conseguimos ter essa ciência. Em síntese, batizo o Novo Acordo, sem ter o intento da crítica gratuita, de delirium tremens, expressão de origem latina e que é compreendida como delírio de um alcoólatra. Delírio de um alcoólatra é uma belíssima anadiplose para findarmos esse texto heroico; palavra, logo, que deixou de ter importância, afinal, também graças ao Novo Acordo, perdeu sua vida, seu respectivo acento. Hasta pronto

Daniel Muzitano  

quarta-feira, 4 de março de 2020

Por que ninguém comenta sobre Queísmo e Dequeísmo?

Conquanto se façam presentes cotidianamente na linguagem popular, há um lapso iniludível dos vocábulos citados nesse título, sobretudo em conjunturas acadêmicas, de modo que estudiosos da área de Letras não exortam a investigação das práticas de queísmo e de dequeísmo. Nesse comenos, vale propalar que tão-somente o Michaelis e o Volp, em relação aos dicionários on-line, promulgam os respectivos substantivos cá aludidos.
Dessa forma, consoante o Michaelis, queísmo seria a "omissão da preposição "de" antes da conjunção subordinativa integrante "que", quando, pela regência do verbo, na linguagem padrão, ela é exigida". Assim, não é incomum ouvirmos na rua, por exemplo, que "fulana gosta que fale dele". Grosso modo, quem gosta, gosta de, isto é, o apropriado seria dizer "fulana gosta de que fale dele".
A bem da lógica, o queísmo é o equívoco regencial que enfatiza o "que" e rejeita o "de", embora a preposição seja solicitada pelo verbo. Quanto ao dequeísmo, também de acordo com o Michaelis, é classificado como "emprego da preposição "de", sem função sintática e dispensável, antes da conjunção "que", em determinadas orações.
Pari passu, seria como dizer algo do tipo "percebo de que fiz isso". Em suma, eu não percebo de algo, e sim algo. Em outras palavras, o dequeísmo é um solecismo regencial que dá ênfase ao "de", ainda que o verbo não o peça. Fôssemos um país decente, queísmo e dequeísmo estariam em nossa base curricular. Porém, na cabeça de alguns, o barato é o culto às necedades do Novo Acordo. Eu faço a minha parte. Uma boa-noite a todos.
Daniel Muzitano

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Dois elementos que postergam a evolução do país

Em meio a atividades tantas, ontem estive por refletir acerca do número onímodo de músicas nacionais que romanceiam, por exemplo, as favelas e suas condições demasiado deterioradas. Motu proprio, de há muito gêneros de toda sorte constroem, num local com tiroteios, sexo banalizado, drogas, falta de saneamento básico etc, uma beleza fantasmagórica, o que faz com que achemos normal um sujeito viver nessas condições, ou seja, à míngua.
Dado o exposto, a falta de referência é o grande algoz, de modo que, por conseguinte, o ódio ao lucro, o amor à pobreza e o orgulho de viver numa debacle, a saber, são raciocínios sine quibus non e inerentes à mentalidade do pobre. Em suma, ninguém deveria morar em condições insalubres, bem como ter orgulho desse tipo de situação. Entretanto, nossas músicas estimulam esse comportamento nocivo de nossa sociedade.
Pari passu, outro ponto-chave é a infantilidade da população em idade adulta, mais das vezes decorrente do excesso de responsabilidades na fase infantil, da falta de bons pais ou do local onde mora, posto que a favela não é um ambiente favorável para se ter infância. Assim, todos nós, independentemente de nossa educação, precisamos ter infância quando crianças. Do contrário, estaremos por vivenciá-la no período errado. Grosso modo, muitos pais, fingindo dar atenção aos filhos, mostram sua fase pueril, sobretudo quando brincam com os respectivos, nas fotos postadas com as crianças ou no tempo excessivo em que se dedicam a brincar com eles, com o perdão da silepse.
In verbis, presenciamos também pessoas muito emotivas, quase sempre excessivamente cobradas quando crianças, vivenciando esse estágio mais tarde. Desse modo, o que podemos esperar de um país que forma adultos infantis e que tem, como referencial e trilha sonora daquilo que é belo, a favela, por exemplo? Creio que o não vivenciamento da infância nada traz, senão angústias, o que acarreta drogados, pessoas que banalizam sua vida sexual, analfabetos funcionais etc. Vale a reflexão.
Daniel Muzitano

domingo, 19 de janeiro de 2020

A arrogância no duplipensamento de Orwell (sobre a minha suposta altivez)

Lato sensu, pelo fato de eu demonstrar um conhecimento cultural acima da média, sobretudo no que tange à etimologia, amiúde sou rotulado de arrogante, e não tão-somente pela arraia-miúda. Assim, propositadamente ou não, o brio, a autoconfiança e o amor à profissão, mais das vezes, são aspectos confundidos com a dita pesporrência.
Ipso facto, bem vejo a arrogância, tal como ocorre com o discurso de ódio, sendo utilizada de forma ambígua, e, dependendo de quem a usa, com caráter positivo ou não, casando-se com aquilo que Orwell denomina de duplipensamento. Portanto, se duas pessoas dizem que são as melhores naquilo que se propõem, aquela que faz parte do grupo que detém o poder é vista como séria e segura. A que não faz, como alguém que carece de humildade.
Demais disso, vejo o duplipensamento como algo consolidado no diálogo nacional, ainda que o artifício esteja mais acentuado em alguns vocábulos, tendo para tanto as chamadas palavras-chave. De mais a mais, o latim arrogante vem de arrogare, termo que faz as vezes de atribuir. Desse modo, a lógica de atribuir refere-se ao fato de que existe a autoatribuição de características positivas por parte das pessoas; explicação, logo, que faz com que a claque falsária determine ou não o que é ser arrogante, conquanto haja contradições no apontamento.
Por fim, pesquisas apontam que cerca de 80% da população não passa de dois livros num ano, e, por conseguinte, não tem condições intelectuais de debater comigo acerca de diversos temas. E isso é puramente um fato. Entretanto, por se tratar de Daniel Muzitano, passa a ser arrogância. Bom domingo a todos.
Daniel Muzitano