sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Os falsos impertérritos

Sem mais preâmbulos, acerca de Renan Calheiros e Kátia Abreu, não é sem-razão dizer que mais são pessoas sine nobilitate, qual seja, sem nobreza, sem nascimento, diga-se, moral e intelectual. O falso denodo desse pessoal, caracterizado como um lupanar às claras, faz-nos refletir que as diversas possibilidades político-intelectuais reduziram nossas riquezas do passado a nada, como promulgou sabiamente Ortega y Gasset. Embora nunca tenhamos sido um país escorreito, o decoro e a ordem, noutros tempos, eram pré-requisitos numa votação ao Senado.
Em meio aos fatos, é sine qua non a extirpação cultural do que o mesmo Ortega alcunhou de idola fori, isto é, os ídolos do mercado. A elevação de figuras abjetas, à Kátia Abreu e à Calheiros - a crase faz-se aí pelo intuito da moda, afinal, não sou um Pasquale- são dois dentre um sem-número de exemplos. Em suma, enquanto não produzirmos a faculdade do critério e a navegação da opulência referencial, mais seremos configurados pela prepotência e insegurança semântica de diversos imbecis, que hoje têm as faces de Kátia e Renan; dois palúrdios incapazes de interpretar esse texto.

Daniel Muzitano

domingo, 6 de janeiro de 2019

O lapso da disquisição

Embora há cinquenta décadas não fosse mais do que um impropério, hoje a toleima docente é regra, sobretudo quando o assunto perlustra estudos linguísticos e as mentes de gênios à moda João Ribeiro. Que sentimento outro posso oferecer, senão a qualidade do que é irascível? A contrario sensu, caminho resistente àquele culto à ignorância incutido até hoje nos "mestres" de Letras, com respeito à maiúscula.
Demais disso, folhas e mais folhas fizeram crer que Istambul, por mera burrice arábica, foi formada pela frase eis tên polin, ou seja, vamos à cidade. Desta feita, um árabe ouviu a frase e daí passou a chamar o lugar de Istambul. Entretanto, chovem explicações estultas feitas pelos professores abjetos de 22. Para dar luz à matéria, encerro com Itapuã, noutros tempos digna de elogio, designando, por motivos óbvios, pedra preciosa. Aos que criticam meu gosto antigo: estudo os mortos, pois boa parte dos vivos sequer nasceu.

Daniel Muzitano

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

100 anos de atraso

Conquanto haja um ufanismo burro quanto à literatura deste país, é dever meu, antes de tudo, dizer que o título não é hiperbólico, bem como que o assunto não é de somenos. Assim sendo, estava a ler João Ribeiro, um nome sem igual, e lá pelas tantas diz ele que não temos uma Academia, pois não temos literatos; pensamento, esse, com cerca de um século de vida, dado que o autor morreu em 1934.
Na mesma obra, comenta Agrippino Griego que num país como o Brasil, onde a inteligência é considerada um estrangeirismo nefasto, deve ser um tormento ser João Ribeiro. Sem menor opulência, Peregrino Júnior diz: João Ribeiro é um acidente singular e desconcertante, um dos espetáculos mais interessantes da chata planície literária do Brasil. Propondo um paralelo, notem que em todas as áreas, e vale a generalização, temos um gênio para cada 60 mil imbecis.
As mentes mais brilhantes da área de Letras já denunciavam uma deliquescência de um século, e que resulta na nossa crise intelectual presente no então agora. Apesar do cenário, a altivez ignominiosa nunca esteve tão alta. Perante o histórico e as críticas de cérebros provenientes de um século, não é tímido relatar, como sugeriu o Olavo de Carvalho, que de fato estamos uns 260 anos atrasados. Se há 100 anos a inteligência virou exceção, que grau estaríamos agora? Por fim, somos o emblema do quidam e da preguiça.

Daniel Muzitano

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A inocuidade cerebral (MINHA CRÍTICA DO DIA)

Embora não tenha o degas aqui a obrigação de explicar o óbvio, confesso que me causou obstupefação ver a Deborah Secco, que é muito à esquerda, ter ido votar com um livro de Nelson Rodrigues em mãos. De exórdio, o livro não é um desodorante para amenizar cabelos no sovaco, e sim um elemento para ler, ser estudado, indagado etc. Demais disso, inicio dizendo que Nelson brigou com seu próprio filho por ele ser de esquerda, bem como tinha por hábito assistir aos jogos de futebol com o memorável Médici.
Detalhes à parte, Nelson em diversas frases tece críticas épicas contra a esquerda, por exemplo: "Eu amo a juventude como tal. O que eu abomino é o jovem idiota, o jovem inepto, que escreve nas paredes "É proibido proibir" e carrega cartazes de Lenin, Mao, Guevara e Fidel, autores de proibições das mais brutais". Ao par, também disse que o feminismo reduz a mulher a um homem mal-acabado. Ah, mas o teatro dele criticava o conservadorismo - dirão os mais idiotas.
Nelson criticava o pseudoconservador, de modo que entendia que a esquerda estava, como hoje notamos, ocupando espaços na igreja. Para tanto, não faltam ademanes que servem de emblema para o que estou falando. Uma frase marca bem isso: "A Igreja está ameaçada pelos padres de passeata, pelas freiras de minissaia e pelos cristãos sem Cristo. Hoje, qualquer coroinha contesta o Papa".
Grosso modo, a ideia de Nelson era ter como referência a família verdadeiramente conservadora, mas o debate no Brasil é raso, os pensamentos são curtos e hoje o livro é mais utilizado, sem prejuízo da realidade, como um desodorante vencido desde a queda do muro. É triste ver a pobreza cultural de certas almas. Entretanto, graças a Deus ainda existo para ser o contraponto.
Daniel Muzitano

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O que seria o termo cum-quibus?


Não há qualquer zéfiro em minha área, senão pela leitura insistente de bons livros, ainda que o país esteja eivado pelo culto à ignorância. Assim sendo, o rico livro de sinônimos, a saber, do notável Antenor Nascentes, trouxe à tona a expressão latina cum-quibus. Afinal de contas, qual o papel de cum-quibus?
A propósito do fato, a forma cum-quibus designa etimologicamente com que ou com os quais. Consoante o autor, engloba a ideia de meios com que ou com os quais se compram as coisas. Para tanto, os dicionários delegam à palavra a noção de dinheiro. Produzido o esclarecimento, por que motivo o hífen é utilizado no termo aludido?
Do grego hýphen, isto é, um só corpo, o sinal gráfico possui a função de evitar ambiguidades, tal como formar um novo vocábulo mediante dois ou mais outros. Em suma, com e que possuem seus sentidos originais na expressão? Não, haja vista que vieram a significar dinheiro. Portanto, faz-se crucial a hifenização.
Por fim, cito aqui um exemplo que evidencia melhor o intuito de extirpar a ambiguidade. Vejamos: Mesa redonda = literalmente uma mesa redonda x Mesa-redonda = reunião de pessoas especializadas em um assunto, de modo a debatê-lo em igualdade de condições. Claro, ninguém irá ler isso, mas dizia Nietzsche: Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Fim.
Daniel Muzitano

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O aniversário de Nelson Rodrigues


Por conseguinte de um continuum, quisera o tempo que eu findasse a leitura de um livro de Nelson, a saber, no dia em que o dito-cujo completaria mais um inverno. A pátria em chuteiras, obra-prima para os que enaltecem um texto sem igual, faz de todos os leitores meros vassalos de cada vírgula, de cada análise, de cada exasperação do autor.
Nelson foi capaz de ressaltar, por exemplo, que a Inglaterra, depois da copa de 66, nunca mais venceria nada. De modo a não cometer nenhuma sem-razão, o escritor foi o único capaz de trazer elementos do dia a dia, nunca promulgados por qualquer alma, ao futebol, haja vista que tais explicitam a arte, diga-se, em sua melhor perspectiva.
Em síntese, ler Nelson Rodrigues é como possibilitar a ressurreição de Cristo. Nem o piano de Claude Debussy, por assim dizer, consegue formular tanto ato homérico, a fim de ressaltar a expressão latina de um dicant paduani. Por fim, Nelson, penso agora, deve ser uma bíblia àqueles que se propõem a locupletar com a solitária solidão.
De mais a mais, o ponto-chave é que Nelson faz de nossas hodiernas mesas-redondas uma espécie de encontro de simplórios. Envelheci 40 anos em 15 dias e fui capaz, ainda que sem conhecê-lo, de sentir saudade de um tempo que não vivi. Parabéns, Nelson. Uma pena que para cada gênio nasçam 60 mil imbecis. Você é eterno.

Daniel Muzitano

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um tácito de rapsódia


Saber povoar a solidão dignifica o homem em suas mais triviais paixões. Parecia haver um elã infindável e, mesmo, estimulado. Enfim um sábado tenho para a tessitura à deriva, a fim de compor meu tempo com mais liberdade.
Meu gosto cultural possui predicados de séculos atrás, porquanto há a necessidade em pessoas inteligentes pela opção de cérebros antigos. Assim faço, pois difícil parece a convivência com uma mulher que tenha menos de 33 invernos.
Às vezes, parece não haver outro jeito, senão procurar em outro estado a opulência que falta nesse. A pátria em chuteiras de Nelson Rodrigues e um bate-papo com a Regina foram minhas respirações diante deste frio esboçado por um legítimo verão. Conversas e conversas são inimagináveis, mas Regina fala de livros, tece críticas culturais e possui um nível similar ao meu, sem qualquer objeção.
A ausência de um colóquio no Rio tornou-se o bar não uma opção, mas uma obrigação para reinar o colosso de uma praia. Chegamos a um ponto de ver mais fulgor à distância de 500 mil metros a ficar submetido a uma saia sem qualquer obra. E o pecado parece irremediável.

Daniel Muzitano