quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O que seria o termo cum-quibus?


Não há qualquer zéfiro em minha área, senão pela leitura insistente de bons livros, ainda que o país esteja eivado pelo culto à ignorância. Assim sendo, o rico livro de sinônimos, a saber, do notável Antenor Nascentes, trouxe à tona a expressão latina cum-quibus. Afinal de contas, qual o papel de cum-quibus?
A propósito do fato, a forma cum-quibus designa etimologicamente com que ou com os quais. Consoante o autor, engloba a ideia de meios com que ou com os quais se compram as coisas. Para tanto, os dicionários delegam à palavra a noção de dinheiro. Produzido o esclarecimento, por que motivo o hífen é utilizado no termo aludido?
Do grego hýphen, isto é, um só corpo, o sinal gráfico possui a função de evitar ambiguidades, tal como formar um novo vocábulo mediante dois ou mais outros. Em suma, com e que possuem seus sentidos originais na expressão? Não, haja vista que vieram a significar dinheiro. Portanto, faz-se crucial a hifenização.
Por fim, cito aqui um exemplo que evidencia melhor o intuito de extirpar a ambiguidade. Vejamos: Mesa redonda = literalmente uma mesa redonda x Mesa-redonda = reunião de pessoas especializadas em um assunto, de modo a debatê-lo em igualdade de condições. Claro, ninguém irá ler isso, mas dizia Nietzsche: Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Fim.
Daniel Muzitano

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O aniversário de Nelson Rodrigues


Por conseguinte de um continuum, quisera o tempo que eu findasse a leitura de um livro de Nelson, a saber, no dia em que o dito-cujo completaria mais um inverno. A pátria em chuteiras, obra-prima para os que enaltecem um texto sem igual, faz de todos os leitores meros vassalos de cada vírgula, de cada análise, de cada exasperação do autor.
Nelson foi capaz de ressaltar, por exemplo, que a Inglaterra, depois da copa de 66, nunca mais venceria nada. De modo a não cometer nenhuma sem-razão, o escritor foi o único capaz de trazer elementos do dia a dia, nunca promulgados por qualquer alma, ao futebol, haja vista que tais explicitam a arte, diga-se, em sua melhor perspectiva.
Em síntese, ler Nelson Rodrigues é como possibilitar a ressurreição de Cristo. Nem o piano de Claude Debussy, por assim dizer, consegue formular tanto ato homérico, a fim de ressaltar a expressão latina de um dicant paduani. Por fim, Nelson, penso agora, deve ser uma bíblia àqueles que se propõem a locupletar com a solitária solidão.
De mais a mais, o ponto-chave é que Nelson faz de nossas hodiernas mesas-redondas uma espécie de encontro de simplórios. Envelheci 40 anos em 15 dias e fui capaz, ainda que sem conhecê-lo, de sentir saudade de um tempo que não vivi. Parabéns, Nelson. Uma pena que para cada gênio nasçam 60 mil imbecis. Você é eterno.

Daniel Muzitano

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um tácito de rapsódia


Saber povoar a solidão dignifica o homem em suas mais triviais paixões. Parecia haver um elã infindável e, mesmo, estimulado. Enfim um sábado tenho para a tessitura à deriva, a fim de compor meu tempo com mais liberdade.
Meu gosto cultural possui predicados de séculos atrás, porquanto há a necessidade em pessoas inteligentes pela opção de cérebros antigos. Assim faço, pois difícil parece a convivência com uma mulher que tenha menos de 33 invernos.
Às vezes, parece não haver outro jeito, senão procurar em outro estado a opulência que falta nesse. A pátria em chuteiras de Nelson Rodrigues e um bate-papo com a Regina foram minhas respirações diante deste frio esboçado por um legítimo verão. Conversas e conversas são inimagináveis, mas Regina fala de livros, tece críticas culturais e possui um nível similar ao meu, sem qualquer objeção.
A ausência de um colóquio no Rio tornou-se o bar não uma opção, mas uma obrigação para reinar o colosso de uma praia. Chegamos a um ponto de ver mais fulgor à distância de 500 mil metros a ficar submetido a uma saia sem qualquer obra. E o pecado parece irremediável.

Daniel Muzitano

quinta-feira, 28 de junho de 2018

A etimologia em Dom Casmurro


Conquanto o estudo seja Brasil afora uma espécie de impropério, de modo que o culto à ignorância mais é atopetado, este escrito visa a ligar termos pouco comuns no dia a dia, por sua vez presentes em Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, a fim de desvendar alguns étimos nunca interrogados, pelo menos não à moda que incute Antenor Nascentes e Machado de Assis; figuras, portanto, dignas de registro.

Sem mais delongas, Machado faz menção à palavra sestércio, a saber, antiga moeda romana. A bem da verdade, o vocábulo é oriundo do latim sestertiu, isto é, adjeção de se (redução de semi-) com terço/terceiro (tertius). Em síntese, meio terceiro configuraria dois asses e meio; valor, logo, correspondente à época. Demais disso, o Bruxo do Cosme Velho cita também a expressão predito, por seu turno emanada do latim praedictus, ou seja, dito (dictus) antes (prae). Observações à parte, promulgo que sou contrário àquele absurdo de modificar a obra machadiana, com o intuito de ela ser mais bem acessível aos jovens pútridos e incapazes de uma locupletação vocabular.

Destarte, tísico é outro ponto que aparece vez ou outra no autor, diga-se, cuidadoso e rico em cada pausa. Acerca do termo, trata-se de um indivíduo muito magro, que sofre de tuberculose pulmonar, ao passo que advém do grego phthisiké, qual seja, que causa consunção; palavra, essa, aludida por Antenor. Como próximo, encarquilhar seria tão-somente um verbo designando ficar com carquilha, logo, cheio de rugas. Resumo da ópera, coadunação de en- (movimento para dentro) com carquilha, que provém de karko, torcido; adjetivo, então, direcionado evidentemente à pele.

Seguindo o texto, lépido decorre do latim lepidu, por sua vez englobando a noção de gracioso, embora haja por hoje a ideia de rápido e de adjetivos afins. Por fim, o que o jovem precisa é correr atrás, afinal, não existe ensino, e sim aprendizado. Que aprendam não mais a fazer as vezes de fantoche de professor que acha bacana a banalização da estupidez, a formação de macunaímas, e, não menos grave, a criminosa ordem dos valores intelectuais. Machado é eterno. É isso.

Daniel Muzitano

quinta-feira, 14 de junho de 2018

As peripécias da peripécia


Conquanto não seja tão-somente uma melódia, que, a seu bel-prazer, está atrelada à faculdade de uma espécie de surpresa, a peripécia talvez sê, sobretudo ao olhar de Aristóteles, um elemento difuso e pautado numa reviravolta de fatos; comportamento, esse, crível e presente na poética do filósofo, resultando num rumo contrário àquele dantes imaginado. 

Demais disso, e menoscabando dicionários esquálidos, Antenor Nascentes, mestre dos mestres, sublinhou em sua obra-prima não apenas o pormenor aristotélico, tal como promulgou que houve uma clara extensão de sentido. Desta feita, a palavra faz as vezes outrossim de aventura e de incidente, diga-se, em seus mais diversos sentidos. 

Por fim, a circunspecção do fato tem por nascimento o grego peripéteia, por seu turno significando acidente. Em suma, o sentido original do termo está coadunado para com a ideia do autor. Como só Aristóteles explica Aristóteles, dadas duas proposições, a saber, uma é verdadeira. Outra, falsa. E assim deu-se o terceiro excluído.

Daniel Muzitano

terça-feira, 29 de maio de 2018

Não seria mais fácil?


Conquanto a etimologia não seja o ai-jesus enquanto aprendizado, sobretudo no que diz respeito à classe docente, porfio com a questão, de modo que noutro dia rememorei que em minha puberdade, a bem dos fatos, tivera eu um exacerbado contratempo para gravar e para assimilar, por algum porquê, o conceito da palavra oligopólio.

Demais disso, mais das vezes o vocábulo para comigo era um ponto de dúvida e de confusão, pois nele havia um estorvo maior do que o Maracanã. Nimiedades à parte, presumo que não é lá muito profícuo dizer tão-somente que o oligopólio é a situação econômica cujo pequeno número de empresas controla a oferta de produtos para ter domínio sobre o mercado.

Em síntese, estar mais bem a par é ir ao encontro da origem, porquanto oligo- é prefixo emanado do grego olígos; designando, portanto, pequeno. Já o sufixo -pólio, sabê-lo-íamos que engloba a lógica de venda. Com isso, precisamos de uma vez por todas fazer da etimologia uma obrigatoriedade em nossas vidas, afinal, como dizia Tito Lívio, quanto menor o medo, menor o perigo. Que raciocinemos: não seria mais fácil? Vamos à luta.

Daniel Muzitano

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O desânimo de morar no Rio


À diferença doutros tempos, épocas em que um Macunaíma não era exaltado, a dedicação aos estudos, à espreita da lei, resultava em méritos exorbitantes, ao passo que o malandro, seja na figura de um Lula ou de um bandido qualquer, não possuía vez, conquanto desde o romantismo o Brasil dê sinais de sua imensa inocuidade cultural.
Pari passu, a família, o trabalho, o estudo e os bons valores no panorama brasileiro mais parecem utopias, quando muito um lugar-comum. Desta feita, o não estudo, por exemplo, serve de abre-alas para uma desculpa, acarretando vez ou outra num degrau a mais. A nítida inversão de valores, dantes taciturna, vem à tona em seu rosto mais abjeto, chegando ao ponto de a explicação do óbvio ser de difícil compreensão.
Por fim, é desanimador estudar no Brasil, enquanto que um sindicalista que mal sabe ler, a saber, às vezes consegue três vezes o que você ganha, tal como é nojento o descaso com a polícia em prol do bandido, com o trabalho em favor de uma ideologia, e, principalmente, é ominoso e desanimador viver aqui, afinal, poucos são os olhos que enxergam tal raciocínio. Dado o exposto, retorno à Maria Callas. Quem? - perguntarão tantos. Que um raio aparte.

Daniel Muzitano