sábado, 28 de dezembro de 2024

Descanse em paz


Soube neste momento de que o Doutor Gilberto Mendonça Teles faleceu no início deste mês. Para mim, era o nec plus ultra da minha área, uma mente brilhante, com um sem-fim de predicados. Se ainda não desisti da profissão, que é mais das vezes injusta, remunerando aquém, o mérito é dele.
E como sói ocorrer, não irei aqui esbater a grande mídia, que esqueceu de um nome tão marcante academicamente. Aliás, o único veículo que noticiou o falecimento do Doutor Gilberto foi o Jornal Opção, que é desconhecido, porém digno de nota.
Conheci o professor Gilberto lá em 2016, quando achei que pudesse ter dinheiro para fazer um mestrado na PUC. Eu era um sonhador. À época, mandei um e-mail para mais de cem professores e ele foi o único que aceitou conhecer a minha tese, que dizia respeito à inserção da etimologia no processo de alfabetização.
Depois da primeira conversa, topou me orientar. Percebi, naquele momento, que eu não tinha qualquer referência intelectual na área de etimologia. Foi ele quem me apresentou o Antenor Nascentes, o Antônio Geraldo da Cunha, as obras etimológicas do Platão, Rocha Pombo, Mansur Guérios e um tutti quanti.
Outrossim, foi ele o sujeito que sugeriu que eu fizesse um dicionário de etimologia, até hoje em curso, talvez em 2060 eu termine. Generosamente, disse que a etimologia precisava de mim, pois andava sem autores capacitados. Não há diploma algum que valha mais do que isso.
Conversamos algumas vezes pessoalmente, todas em Copacabana, onde residia, a fim de tratarmos de documentos da tese e a tese propriamente dita. Com o tempo e o advento da pandemia, perdemos um pouco o contato. Entretanto, ainda sim trocávamos e-mails. É certo de que já possuía seus 93 anos, o que é bastante, mas um cara dessa têmpera não podia morrer. Aliás, não vai morrer jamais. Doutor, guardarei com bastante respeito a foto que tiramos e o livro que você autografou.
Obrigado por ter levado a sério intelectualmente aquele moleque maluco que gravava os étimos e já se achava um Doutor Gilberto. Um dia, se Deus me der tempo, dinheiro e força, eu termino o nosso projeto. Um abraço, professor. Um dia a gente se vê.


Daniel Muzitano

sábado, 9 de novembro de 2024

O glorioso sem glória


Que a história do Botafogo é parca em matéria de troféus, indubitavelmente ninguém pode negar. Aliás, mesmo que ocorra o fato bíblico de sagrar-se campeão brasileiro e da Libertadores este ano, ainda sim estará longínquo de um sem-fim de clubes. Mas, por que razão algumas pessoas tratam o alvinegro carioca como um nec plus ultra do futebol? Ter outorgado mais jogadores para a seleção justifica o escudo ser alçado a essa natureza de importância? 

Do final da década de 1960 até este momento, o Botafogo conseguiu apenas dois brasileiros. Reiterando: 2 em mais de 50 anos. De mais a mais, os rebaixamentos superam esses dois triunfos. Em que lugar reside essa grandeza? Ah, venceu alguns estaduais, chegou a uma final de Copa do Brasil e está na final da Libertadores. Di-lo-ei ser muito pouco. 

Fosse um tempo verbal, o Botafogo seria um futuro do pretérito: seria, faria, ganharia, conquistaria... Doravante, do ponto de vista do futebol jogado em 2024, é um clube instável emocionalmente, basta rememorar como passou pelo Palmeiras e pelo São Paulo. Entrementes, existe um aspecto por parte do alvinegro: sua superioridade física. O Botafogo sabe a hora de respirar. Porém, se perder para o Palmeiras no Brasileiro, perderá a Libertadores e o próprio Brasileiro em seguida.

Para ser sincero, estou apostando na tradição do Botafogo, que é ser minúsculo em momentos cruciais. E antes que alguns promulguem que o texto é clubista, o Vasco de 2000 foi um dos maiores times que vi na vida, e sou flamenguista. Não tenho qualquer problema em denominar de grande aquilo que é ou que foi grande. Mas, definitivamente, não é o caso do Botafogo. E talvez nunca seja. Ponto!

Daniel Muzitano